Poder, Gênero e Violência nos Sistemas Humanos
Poder, gênero e violência costumam ser tratados como temas separados no debate público. Na prática, eles percorrem a mesma estrutura. O mesmo mecanismo que determina quem tem direito de falar em uma reunião também molda de quem o relato é acreditado quando algo aconteceu, e quem carrega a vergonha quando o assunto vem à tona.
Pierre Bourdieu chamou isso de poder simbólico: um poder que opera por meio da participação daqueles sobre os quais ele incide. O poder simbólico não parece poder. Parece o modo como as coisas são. É justamente isso que o torna difícil de ver e difícil de questionar.
A Emergent Reality trabalha nessa camada. Não trata casos individuais. Torna visível a estrutura que produz casos repetidamente.
O que os dados mostram
A pesquisa de larga escala da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA 2014) constatou que aproximadamente uma em cada três mulheres na UE sofreu violência física ou sexual a partir dos quinze anos de idade. A pesquisa europeia mais recente, publicada em 2024 (Eurostat, FRA & EIGE 2024), com base em mais de 114 mil entrevistas, confirmou essa ordem de grandeza e trouxe à vista também a dimensão da violência psicológica, econômica e digital. A Organização Mundial da Saúde (OMS 2021) chega a uma conclusão semelhante em escala global: cerca de uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida.
Vale distinguir três níveis que se confundem com facilidade: a prevalência da violência, sua notificação e seu reconhecimento institucional. Números altos em um determinado país podem indicar prevalência real, melhor notificação ou ambas as coisas.
Nos países nórdicos, os números são mais altos, não mais baixos. Esse fenômeno é conhecido como Paradoxo Nórdico (Gracia & Merlo 2016): os países que recebem as melhores pontuações em índices de igualdade de gênero relatam mais violência por parceiro íntimo do que, por exemplo, países do sul da Europa. A explicação não é simples. A literatura de pesquisa apresenta diversas explicações paralelas: a cultura de medição e notificação, diferenças na definição de violência, o consumo de álcool e a possibilidade de que a retórica da igualdade encubra estruturas que ainda não foram desmontadas. Não há explicação única.
O ponto é este: uma pontuação alta em índices de igualdade não significa que a violência tenha terminado. Significa que a igualdade avançou em determinadas camadas. Outras camadas permanecem.
Seis perspectivas
- Controle coercitivo e o estreitamento da agência — A violência nem sempre aparece como evento. Pode aparecer como estrutura na qual o espaço de movimento, o dinheiro, os laços sociais e a autoconfiança da outra pessoa se estreitam gradualmente. Evan Stark descreveu isso como controle coercitivo, e em vários países essa figura já consta da legislação penal.
- Credibilidade da vítima e a vítima do tipo errado — A análise clássica de Nils Christie sobre a "vítima ideal" mostra que a credibilidade não se distribui apenas com base no que aconteceu. Ela também é moldada por quem conta a história e pelo quanto essa pessoa corresponde à imagem que o ouvinte faz de uma vítima crível. Nas profissões de cuidado, isso se repete diariamente.
- Silêncio organizacional em torno do dano — Morrison e Milliken descreveram, em 2000, um fenômeno em que membros de uma organização sabem que algo está errado, mas ninguém o nomeia. O silêncio não é ausência de informação. É um acordo compartilhado sobre o que não se fala.
- Teto de vidro e penhasco de vidro — As mulheres não são bloqueadas em seu avanço de uma única forma, mas de várias. Quando avançam, frequentemente são colocadas em posições onde a probabilidade de fracasso é excepcionalmente alta. Ryan e Haslam deram a esse fenômeno o nome de penhasco de vidro.
- Distorções no uso do poder — A experiência de ter poder altera o comportamento de modo recorrente. A pesquisa de Keltner e colegas mostra que o poder pode reduzir a precisão empática, aumentar a tomada de risco e enfraquecer a capacidade de ler os estados emocionais alheios. Isso não é uma característica moral. É um efeito estrutural.
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O que a Emergent Reality faz neste trabalho
A Emergent Reality é a prática de Kaisa Vaittinen na qual a presença na sala faz emergir dinâmicas que as convenções habituais de reunião encobrem. O trabalho é delimitado: ele torna visível. O processamento ocorre depois e cabe a um psicólogo organizacional, supervisor, coach ou outro profissional apropriado.
Esse limite é particularmente importante em temas que envolvem violência, assédio e uso do poder. Nessas áreas, uma intervenção descuidada pode causar dano.
Limite de segurança
Se você estiver em perigo imediato, entre em contato com os serviços de emergência ou com um serviço local de crise. A Emergent Reality não oferece apoio em crise, terapia, investigação, aconselhamento jurídico, processo de RH, dever de proteção (safeguarding) nem assistência a vítimas. O trabalho aqui descrito diz respeito a dinâmicas organizacionais e relacionais no nível da visibilidade, da reflexão e do encaminhamento responsável.
Fontes
- Bourdieu, P. (1991). Language and Symbolic Power. Harvard University Press.
- European Union Agency for Fundamental Rights (2014). Violence against women: an EU-wide survey. Publications Office of the European Union.
- Eurostat, FRA & EIGE (2024). EU gender-based violence survey – key results. Publications Office of the European Union.
- Gracia, E. & Merlo, J. (2016). Intimate partner violence against women and the Nordic paradox. Social Science & Medicine, 157, 27–30.
- Keltner, D., Gruenfeld, D. H. & Anderson, C. (2003). Power, approach, and inhibition. Psychological Review, 110(2), 265–284.
- World Health Organization (2021). Violence against women prevalence estimates, 2018. WHO.